O que fazer?
Jean-Luc Godard
É preciso fazer filmes políticos.
É preciso fazer filmes politicamente.
1 e 2 são antagônicos e pertencem a duas concepções de mundo opostas.
1 pertence à concepção idealista e metafísica do mundo.
2 pertence à concepção marxista e materialista do mundo.
O marxismo luta contra o idealismo, e a dialética contra a metafísica.
Essa luta é a luta do velho contra o novo, a luta das ideias novas e das ideias velhas.
A existência social dos homens determina seus pensamentos.
A luta do velho e do novo é a luta de classes.1
Fazer 1 é permanecer burguês.
Fazer 2 é tomar a posição da classe trabalhadora.
Fazer 1 é fazer uma descrição de situações.
Fazer 2 é fazer uma análise concreta de uma situação concreta.
Fazer 1 é fazer British Sounds.
Fazer 2 é lutar para que British Sounds passe na televisão inglesa.
Fazer 1 é compreender as leis do mundo objetivo para explicar o mundo.
Fazer 2 é compreender as leis do mundo objetivo para transformar ativamente o mundo.
Fazer 1 é descrever o mistério do mundo.
Fazer 2 é mostrar as pessoas em luta.
Fazer 2 é destruir 1 com as armas da crítica e auto-crítica.
Fazer 1 e dar uma visão completa dos acontecimentos em nome da verdade em si.
Fazer 2 é não fabricar as imagens do mundo tão completas em nome da verdade relativa.
Fazer 1 é dizer como são as coisas verdadeiras. (Brecht)
Fazer 2 é dizer como são verdadeiramente as coisas reais (Brecht)
Fazer 2 é fazer a montagem do filme antes da filmagem e fazer durante a filmagem e fazer depois da filmagem. (Dziga-Vertov)
Fazer 1 é distribuir o filme antes de o produzir.
Fazer 2 é produzir um filme antes de o distribuir, aprender a produzir seguindo o princípio: é a produção que comanda a distribuição, e a política que comanda a economia.
Fazer 1 é fazer filmes dos estudantes que escrevem: união-estudantes-trabalhadores.
Fazer 2 é saber que a união é uma luta de contrários (Lênin), saber que dois está em um.
Fazer 2 é estudar as contradições entre as classes com imagens e sons.
Fazer 2 é estudar as contradições entre as relações de produção e as forças de produção.
Fazer 2 é ousar saber onde estamos e de onde viemos, conhecer seu lugar dentro do processo de produção para em seguida o mudar.
Fazer 2 é conhecer a história das lutas revolucionárias e ser determinado por elas.
Fazer 2 é produzir conhecimento científico das lutas revolucionárias e de sua história.
Fazer 2 é saber que fazer filmes é uma atividade secundária um pequeno parafuso da revolução.
Fazer 2 e se servir de imagens e sons como se serve de dentes e lábios para morder.
Fazer 1 é apenas abrir seus olhos e orelhas.
Fazer 2 é ler os relatórios da camarada Jiang Qing.
Fazer 2 é militar.
Escrito a pedido de Simon Field e Peter Sainsbury para “Afterimage”, editada por Peter Whitehead.
Publicado em Inglês com o título de “What is to be done?” em Afterimage n° 1. Abril de 1970.
Publicado em Francês com o título de “Que faire?” Em “Jean-Luc Godard: Documentos”, 2006.









Pós escrito: Logo após de publicar essa tradução, recebo esse pequeno trecho:
12.
Vitória do cinema revolucionário: 2 de fevereiro de 1966.
Editorial do Bandeira Vermelha. A camarada Jiang Qing denuncia a teoria afirmando que convém “escrever a verdade”, denuncia a teoria da “via larga do realismo”, denuncia a teoria da “oposição ao papel decisivo do sujeito”.
2 de fevereiro de 1966: nascimento do cinema de ficção materialista.
13.
Nunca somos completamente contemporâneos do nosso presente. A história avança mascarada.
Inscreve-se na tela com a máscara da sequência anterior e já não reconhecemos nada do filme.
A culpa, é claro, não é da história, mas do nosso olhar carregado de sons e imagens adquiridos.
Ouvimos, vemos o passado sobreposto ao presente, mesmo que esse presente seja uma revolução, uma revolução.
Está no livro Jean-Luc Godard y el grupo Dziga-Vertov, ed. Ramón Font. Agradeço ao Daniel Moreno e ao Bruno Andrade pelo trecho.
O manuscrito original pulava o ponto 9, manteve-se o erro do autor aqui.

